foto de José Meirelles Passos (O Globo)
Antiga linha de montagem da GM

AGeneral Motors, criada em 1908 e que agora desabou ruidosamente, já teve muito mais do que altí-ssimos lucros: já teve o poder! Em 1953, sua influência na política estadunidense era tão grande que Dwight Eisenhower nomeou Charles E. Wilson, então presidente da GM, como Secretário de Defesa. E o tal Wilson, em pronunciamento no Senado, disse que “o que é bom para o país é bom para a GM e o que é bom para a GM é bom para o país”. Não devemos estranhar, então, que pouco mais de meio século depois, a empresa símbolo da pujança do país torne-se parte do Estado. Ou seja, transforme-se afinal em uma estatal.
Já nos seus primeiros anos de existência, engoliu outras empresas como Buick, Oldsmobile, Cadillac e GMC. Na segunda metade da década de 1920 comprou a inglesa Vauxhall e a alemã Opel. Em 1980 tinha mais de 600.000 empregados nos EUA e 250.000 no restante do mundo. Sua receita pulou de 62,7 bilhões de dólares, em 1981, para 123,6 bilhões de dólares em 1988 e a empresa já tinha diversificado sua produção fabricando desde ônibus até satélites e equipamentos militares. Em 2001, a GM era proprietária de várias marcas: Buick, Oldsmobile, Cadillac, GMC, Chevrolet, Vauxhall, Opel, Saab, Saturn, Daewoo e Hummer.
Mas é exatamente neste período dos últimos 20 anos que a GM começa a montar a armadilha que a levaria ao triste momento de “jogar a toalha”. Já na segunda metade dos anos 1980, seguindo a cartilha liberal da globalização e da busca por maiores lucros a GM iniciou um processo de reduzir suas fábricas em território estadunidense, transferindo as plantas industriais para países com mão-de-obra mais barata e mais dócil. Na verdade, as imagens que hoje vemos dos prédios abandonados na cidade de Detroit não surgiram em pouco menos de um ano (desde que a crise explodiu). Aquelas plantas industriais e linhas de produção já estavam sendo abandonadas há mais de 10 anos... desde a década de 1980!

foto de José Meirelles Passos (O Globo)
Mendigos vivem em Detroit. Ao fundo, prédio da GM.

Durante mais de um mês, no início deste ano, fomos mantidos em expectativa como se aguardássemos o último capítulo de uma novelas da Globo. Os jornais nos cansaram com matérias tipo “GM pode pedir concordata”, “GM enfrenta dificuldades”, “GM busca acordo para sobreviver” e outras. E, enfim, o dia tão aguardado chegou.
Percorrendo as páginas dos grandes jornais não é possível entender a realidade. Por exemplo, o “Estadão” do dia 31 de Maio, sob o atrativo título “O fim do sonho americano...”, diz que “Alto custo da mão de obra, com benefícios generosos, foi um dos motivos para o declínio das mon-tadoras nos EUA”. Certamente a matéria foi encomendada pelos grandes patrões de São Paulo que estão usando a crise do capitalismo para ameaçar trabalhadores e tentar impor acordos inescru-pulosos.
Mas a autora da matéria não se preocupou em fazer uma pesquisa sobre os “acordos” que estavam sendo feitos nos EUA, com a retirada progressiva de direitos nos últimos anos. Nem por alto falou na realidade das montadoras nos EUA depois da globalização neoliberal, com fábricas inteiras sendo transferidas para outros países. Esta sim, a raiz da crise estadunidense.
Seguindo adiante, o que não encontramos na matéria do “Estadão” ou em qualquer outra foi a relação entre este monstro sagrado – a GM – e o governo dos EUA, passando pela quase incestuosa relação deste com os “sindicatos” locais.
Um pouco de luz começa a aparecer em uma nota publicada pela Agência EFE (não sei se algum jornal brasileiro publicou) trazendo curta entrevista com Ken Lewenza, presidente do Canadian Auto Workers (CAW - sindicato canadense dos trabalhadores nas indústrias automobilísticas). Lewenza diz que seu sindicato fez um acordo semelhante ao do sindicato estadunidense para tentar “salvar” a GM e deixa claro que “os governos canadense e da província de Ontário obrigaram o sindicato a aceitar novas concessões antes de 31 de maio, (...)”. Vale destacar que o acordo do sindicato canadense aconteceu poucos dias depois do acordo do sindicato estadunidense, abrindo mão de uma boa parcela dos fundos de pensão e fundos de saúde dos trabalhadores da GM. Mas isto parece não ser do interesse da jornalista do “Estadão”.
Em matéria da IAR Notícias (esta certamente não divulgada aqui), ficamos sabendo que o governo Barack Obama usou os mesmos argumentos que Bush usava para salvar bancos e “o Estado investirá 50 bilhões de dólares e passará a controlar 60% do capital da nova GM”. No Canadá, o Estado desembolsará 9,5 bilhões de dólares e terá 12% das ações. Mas as surpresas não param aí!
Lembram da entrevista do Lewenza, dizendo que os sindicatos foram obrigados a aceitar os acordos? Bem, lendo a matéria da Agência EFE descobrimos que, em troca de abrir mão dos fundos de pensão e de saúde dos aposentados, o sindicato estadunidense passará a controlar 17,5% das ações da GM!
Não é genial? Os governos dos dois países (EUA e Canadá) lançam mão do dinheiro público para se tornarem os principais acionistas da empresa e, “na onda”, arrastam os sindicatos locais para a aventura de salvação do símbolo da industrialização capitalista. Os dois Estados (EUA e Canadá), mais os sindicatos, terão 89,5% das ações da empresa!
Por fim, a pergunta que está engasgada. Durante mais de vinte anos ouvimos falar da falência do Estado e da panacéia das privatizações. Por que as matérias dos nossos jornais não assumem o que aconteceu com a GM? Por que temem dizer que a empresa foi estatizada?
Portanto, o que vem sendo escondido pela nossa “imprensa” é que o Estado, este monstro que os neoliberais pintaram como ineficiente e enorme paquiderme, tem sido o grande salvador do sistema quando ele entrou em crise. A “mão invisível” pintada por Adam Smith não funcionou, mas o punho firme do Estado parece estar sendo a solução. Eis a palavra não pronunciada!
Rua Real Grandeza - 219 - Anexo - Sala 302
Tels.: (21) 2579-3956 / 2286-2368
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